AMOR ON LINE

HA DE SER LOUVADO

HA DE SER PRO BEM

HA DE ESTAR NA VIDA

HA DE ESTAR NO ALÉM

HA DE VIR NA TARDE

E NA MANHÃ TAMBÉM

E SE COMPLETA A NOITE

SEMPRE QUE VOCE VEM.

ESSE SEU DESEJO

SEMPRE ME MANTÉM

COMO UM SER DISTANTE

UM AMOR AQUÉM

ESSE AMOR SINTOMA

ESSE QUERER BEM

SE TURVA NO CAMINHO

SE PERDE QUANDO VEM.

Angelo Gustavo Venancio de Lima

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SINTOMA

 

 

O QUE VEM DO OUTRO JA EXISTE EM MIM,

É UM MOVIMENTO DE MÃO UNICA,

DE MÃOS UNICAS EM PISTAS PARALELAS

NA MESMA VIA DA VIDA, NA VIA DO SER.

 

SEU OLHAR ME ESCAPA, TE INTERPRETO ENTÃO

AGORA TE PERCO PARA TODO O SEMPRE

TE PERCO NO PRESENTE

ME PERCO EM VÃO.

 

ME TOME PELO SIM

TE VEJO PELO NÃO

MEU ERRO É TE OLHAR

PELA INTERPRETAÇÃO

Angelo Lima

Saída pela Sublimação. Poesias de uma paciente “impaciente”, como ela se rotula.

AS FLORES

As flores são como nós
cada uma tem sua sorte
estão sempre presentes
umas na vida outras na morte

Elas estão sempre alegrando
nossos caminhos
e como em nossa vida
elas também tem espinhos

Rosas violetas margaridas e jasmim
gosto de todas elas
bem pertinho de mim

Brancas vermelhas
rosas azuis e amarelas
adoro tirar foto
com todas elas

Flores são um presente de Deus
enfeitam a natureza
alegram a nossa vida
e afastam a tristeza

———————————————————————————————-

Ano novo vida nova

Um novo ano começa
eu quero começar esse ano cheia de ESPERANÇA
vou lutar para tirar de dentro de mim
e fazer crescer esta CRIANÇA

principalmente porque é uma criança do passado
com muito medo de CAMINHAR
quero me sentir adulta,responsável
e voltar a SONHAR

quero conquistar muitas coisas novas
realizar muitos sonhos e arranjar um novo EMPREGO
vou provar para mim mesma que ja não tenho mais MEDO

não vou andar depressa vou bem
DEVAGARZINHO
sei que vou precisar de muita ajuda
quem sabe até mesmo de um EMPURRAOZINHO

Se eu tropeçar vou segurar para não cair
e se eu CAIR vou levantar
olhar para frente e meu
caminho vou SEGUIR

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TE CONVIDARAM

Te convidaram para usar drogas
Você aceitou
Te convidaram para aceitar Jesus
Você recusou

Te convidaram para frequentar um grupo de jovens
de uma igreja você não aceitou
Aceitou usar drogas
que quase te matou

Te convidaram para uma viagem
em um retiro você não aceitou
Mas no mundo das drogas você viajou

Te convidaram para você estudar
lutar para ser alguém na vida
você não quis
preferiu continuar nas drogas
fazendo sua mãe infeliz

Te convidaram para internar
você não aceitou
mesmo assim internada você ficou

Não escrevi isso
para jogar pedras ou julgar ninguém
escrevi para minha filha para que ela saiba
que eu a amo e lhe quero muito bem

Ana Maria da Silva

Ana Maria aos 58 anos, trabalha desde menina como doméstica, não se formou, e possue uma incrível facilidade em observar a vida pela ótica poética.

…entre o ser e a síndrome…

 

ENTRE O SER E A SÍNDROME

 

Ângelo Gustavo Venâncio de Lima

Este presente artigo irá elucidar, através dos pressupostos da Fenomenologia – Existencial, a dimensão do encontro clínico e suas conseqüências para o ser.

Resumo

Através do trabalho exercído pelo aluno pesquisador na clínica Fenomenológica – Existencial, será possível discorrer sobre a psicoterapia de um rapaz que chamaremos de M., que foi encaminhado a clínica com o diagnóstico de Síndrome de Aspergir. Nesse processo psicoterapêutico foi possível ao psicoterapeuta estabelecer um vínculo com o paciente que permitiu trabalhar questões como liberdade, escolha, alienação, dependência, auto-imagem, entre outras. O processo psicoterapêutico teve a duração de aproximadamente um ano, com uma sessão por semana.

Palavras chave: Síndrome – Liberdade – Escolha – responsabilidade

A angustia de existir e o desespero

Segundo Kierkegaard, citado por Feijoo (2000), “define-se a angustia como a antipatia simpatizante e simpatia antipatizante, mostrando assim o caráter da mobilização deste sentimento que, ao mesmo tempo em que traz o desejo como devir, traz o temor do amanha, justamente o imprevisível”.

A seguir a descrição da primeira sessão com o paciente M:

M. chegou ao consultório sem dizer nada, sentou-se na beirada da poltrona e ficou olhando ao redor, para a mesa, a janela e o armário sem olhar para o psicoterapeuta. Ao ser perguntado sobre o que lhe trazia a clinica, ele sem olhar nos olhos do psicoterapeuta diz que teria sido encaminhado por ter sido diagnosticado pelo psiquiatra como sendo portador de uma doença chamada Síndrome de Aspergir.  Ao perguntá-lo sobre os sintomas dessa síndrome, ele prontamente relata detalhadamente, como se tivesse retirado de um livro cientifico, todas as facetas dessa doença. E diz ainda:

– Minha mãe diz que sou um gênio, consigo ler um livro de trezentas paginas em um dia. Esse e´ um sintoma da Síndrome (ele diz). Também não expresso vontade, não expresso alegria ou tristeza, nem raiva e nem contentamento. Eu não preciso de ninguém. Consigo viver só. Não tenho paciência com as pessoas e com a conversa delas. Vejo-me como se estivesse acima de todos. Prefiro viver no meu mundo. No mundo que criei, no mundo de Henrique (Henrique é um personagem criado por M., um personagem no qual M. consegue se relacionar pela Internet com outras pessoas “especiais como ele”, sem mostrar-se).

“No desespero demoníaco pela consciência desse eu passivo de querer ser ele próprio, acaba não tolerando qualquer situação difícil. Pela paixão no seu tormento, torna-se demoníaco: crê na sua superioridade infinita, sem querer a ajuda de ninguém. Acaba por temer o infinito, formando-se uma abstração infinita do eu”. (FEIJOO, 2000, P. 66)

O mais interessante nesse início de processo psicoterapêutico, foi perceber o quanto M. estava apegado e “formatado” a uma identificação alienante com o ser que sua mãe dizia que ele era. Ou seja, um gênio, um ser especial e único que não tem nada de si no outro e nada do outro em si. Porém existia ao mesmo tempo na fala de M., certa revolta por estar nessa posição, como se quisesse demonstrar a todo o momento que não estava ali, na psicoterapia, apenas para satisfazer um desejo da mãe, mas para encontrar o onde e porque perdera o próprio desejo, a própria vontade.

“A Psicologia tornou agora a encontrar a angustia no objeto. Deve porem, manter prudência. A historia da existência individual progride em movimentos de estado a estado e cada estado e´ fixado por um salto… O estado que antecede cada salto e´ a maior aproximação psicológica que pode ser atingida com respeito ao salto: esse e´ o objeto da Psicologia. Em cada estado existe uma esfera de possibilidades e, em igual medida, a angustia.” (KIERKEGAARD, citado por Feijoo, 2000)

Um fato interessante no atendimento ao paciente M. se deu pela escolha por parte do psicoterapeuta em não buscar um maior conhecimento sobre a Síndrome de Aspergir, num primeiro momento. O psicoterapeuta se ateve a vivência experienciada pelo paciente, ou seja, a maneira como esse jovem de dezenove anos se percebe e se situa no mundo.  Essa escolha definiria todo o processo terapêutico. A escolha em tratar o paciente como um ser – no – mundo e não um objeto doente alienado do mundo.

“O homem não pode sair do seu espaço de destino concreto, se este rebela contra o destino, isto e´, em face daquilo contra que nada pode, em face daquilo em que não tem nenhuma responsabilidade ou culpa é porque não se viu bem o sentido do destino. E, há um sentido do destino, pois este, tal como a morte, da a vida um sentido. Dentro do seu espaço de destino, como que exclusivo, o homem e´ insubstituível. E e´ esta insubstituibilidade que gera a sua responsabilidade pela configuração do seu destino. Com o destino assim caracterizado, o homem esta por assim dizer, só´ no meio do universo. O seu destino não se repete. Ninguém tem as mesmas possibilidades que ele, nem ele próprio as volta a ter. As ocasiões com que depara para realizar valores criadores ou vivenciais, aquilo que e´ próprio do destino e vem ao seu encontro’. (VICTOR FRANKLEL, p.119, 1989)

 

Liberdade e responsabilidade

Apesar da forma como M. se colocava, como um ser mais inteligente que a media, acima dos pobres mortais, M. excolhia não escolher. Não queria ser responsável pela liberdade que a escolha oferece. M. escolhia esconder-se atrás de um diagnóstico que de certa forma da´ um sentido para o seu ser.

Segundo Victor Frankel, “Se quiséssemos definir o homem, teríamos que caracterizá-lo como o ser que se vai libertando daquilo que o determina, enquanto tipo determinado biologicamente, psicologicamente e sociologicamente; quer dizer, como o ser que transcende toda estas determinações, dominando-as ou configurando-as”.

Do primeiro ao quinto mês de psicoterapia, o que o psicoterapeuta escutou de M. foi uma enorme expressão de fantasias. M. teria construído uma espécie de “mundo paralelo” onde inventara seu outro rapaz, com outra família e morando em outro lugar, melhor dizendo, na Noruega. O escutar dessas fantasias e a atitude do psicoterapeuta em dar nomes às mesmas, ou seja, dizer, por exemplo, a M.; Você esta dizendo do Henrique, o rapaz que você gostaria de ser e que você fantasiou…, possibilitou a M. se colocar novamente em situação, ou seja, colocar-se presente, lúcido e responsável pela decisão de escolher ser outro e assim, perceber as perdas e os benefícios que essa escolha o trouxera ate esse momento.

“… Mas ser – no – mundo não quer dizer que o homem se acha no meio da natureza, ao lado de arvores, animais e outros… E´ uma estrutura de realização… O homem esta sempre superando os limites entre o dentro e o fora”. (HEIDEGGER, 1998, p. 20)

Aproximadamente com um ano de processo psicoterapêutico, M. deixou o fone de ouvido que trazia sempre nas sessões e que o afastava do mundo, pois não ouvi a ninguém a não ser seus pensamentos. Também nesse momento, M. começou a demonstrar emoções como raiva, asco, ódio e humor irônico. Embora fossem emoções que traziam uma enorme carga negativa, eram sentimentos, que ao contrário do que o sintoma da sua “Síndrome” descrevia M. expressava-os com muita intensidade. Também nesse período M. já não era mais chamado pela sua mãe de Gênio, muito pelo contrario, ele agora, era comparado por ela como sendo uma copia do pai, ou seja, um traste.

Ao escolher se expor, colocar-se no mundo através de suas vontades e escolhas, começavam a surgir para M. as conseqüências das mesmas. De gênio passou a ser considerado pela sua mãe um traste, de fantasioso, passou a se colocar como inseguro, porem ciente de ser um ser em situação e para a morte, assumindo a sua finitude. Sua mãe também deixou de ser para ele aquela pessoa na qual ele dizia não sentir nada, nem amor, nem ódio, para ser alguém que o provoca emoções de revolta, ódio e desapontamento.

A seguir um trecho de uma sessão que M. ao convocar a mãe a uma discussão franca recebe uma resposta que o deixa furioso e espantado por perceber o quanto era colocado por ela num papel de infantil e retardado.

Psicoterapeuta: Como foi a conversa que você me disse que teria com a sua mãe?

M.: Ah, eu disse a ela que estava com muita raiva por ela não ter feito almoço.

Psicoterapeuta: O que ela disse?

M. Você não e´ igual ao seu pai, é pior, porque ele pelo menos e´ um traste que cozinha, você nem sabe cozinhar.  Você esta com raiva não e´ por causa da comida, é porque quando você tinha seus 5 anos de idade eu não deixei você brincar com o super nintendo o dia todo.

Psicoterapeuta: Como você se sente com essa fala da sua mãe?

M. Ela que precisa de terapia, ela acha que eu não cresci que ainda sou um menino.

Psicoterapeuta: E você pensa o que?

M. Bom, digamos que estou aprendendo a não ser.

Psicoterapeuta: Ou ser você mesmo?

M.: Sim, pode ser.

Nessa sessão M. pode perceber o quanto a relação com a sua mãe não era uma relação de ser – com, ou seja, uma relação onde duas pessoas se encontram e estabelecem vínculos sem deixar que uma se sobreponha a outra. Ao contrário, no caso de M., o encontro com a sua mãe era sempre baseada numa relação de ser – para o outro, ou seja, ser em função do outro, em fusão com o outro. Uma relação de objeto. Daí a angustia vital que M. trazia. A angustia de ser sempre para a mãe, para os desejos da mãe, a angustia de não ser.

“O primordial ser –no –mundo do homem não e´ uma abstração, mas uma ocorrência concreta, acontece e se realiza, apenas, nas múltiplas formas peculiares do comportamento e nas diferentes maneiras dele relacionar-se `as coisas e `as pessoas. Ser não e´uma estrutura antológica existindo em algum supermundo que se manifesta uma vez ou outra na existência humana. Se – no – mundo consiste na maneira única e exclusiva do homem existir, comportar e se relacionar `as coisas e `as pessoas que encontra”. (BOSS, 1963, p.34)

Nas ultimas sessões M. se mostrou falante, observador, critico, lúcido e autentico. M. agora tem a consciência do lugar que ocupa no mundo e percebe que as fantasias que criava não eram delírios ou sintomas da suposta síndrome diagnosticada previamente, mas sim saídas que ele encontrou para dar conta da imensa insatisfação de ser quem ele realmente era, ou seja, um rapaz pobre, muito tímido, que divide um quarto com a mãe, tendo seu espaço muito limitado e desrespeitado por ela. E também esta consciente que desempenhava muito bem o papel de filho doente para não enfrentar as adversidades que o mundo coloca a sua frente, como trabalho, estudos e ate mesmo aprender a cozinhar. M. deixou de ser o ser – para a mãe e separado do mundo para ser o ser – no mundo, separado da mãe.

Conclusão

Primeiramente, deixemos claro que o caso não esta concluído, pois a construção da obra de M. esta apenas começando, que e´ a construção da sua própria existência.  Uma existência antes rotulada por um diagnostico ou um sentença e agora uma existência real, vivida com intensidade, repleta de medos e inseguranças porem vivida humanamente, ou seja, com riscos e o fascínio que as possibilidades da liberdade oferecem a aqueles que se colocam diante da vida, não a observando apenas, mas a “engolindo e a digerindo”.

Assim, o que podemos concluir aqui e´ que somente nos tornamos seres quando existimos. Somente nos tornamos libertos, se nos responsabilizarmos pela liberdade e somente há encontro se percebo no outro o que há em mim.

 

“O mundo e´ sempre um mundo compartilhado com os outros, só´ posso saber quem sou como ser humano, convivendo com meus semelhantes”.               (HEIDEGGER, 1988, p.169)

Referencias Bibliográficas:

FEIJOO, Ana Maria Lopes Calvo de. A escuta e a fala em Psicoterapia. Uma proposta fenomenológico – existencial. São Paulo. Ed. Vetor, 2000.

FRANKEL, E, Viktor. Psicoterapia e sentido de vida. São Paulo. Ed. Quadrante, 1989.

MAY, Rollo e Outros. Existência Madri , Gredos, 1967.

MAY, Rollo. A descoberta do ser. Rio de Janeiro. Ed. Rocco, 1988.

ELIS DE-CIFRADA, TESE DE MONOGRAFIA

CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA

FACULDADE DE CIENCIAS HUMANAS E LETRAS

CURSO DE PSICOLOGIA

                                                      ELIS DE – CIFRADA

 

                                     ANGELO GUSTAVO VENÂNCIO DE LIMA

 

BELO HORIZONTE

DEZEMBRO / 2008

ELIS DE – CIFRADA

 

 

 

 

 

Monografia apresentada ao Curso de Psicologia da Faculdade de Ciências Humanas e Letras do Centro Universitário Newton Paiva, na disciplina Orientação de Monografia, como requisito para obtenção do título de graduado em Psicologia, sob a orientação do professor Geraldo Martins.  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

BELO HORIZONTE

MAIO / 2009 

AGRADECIMENTOS

Agradeço a Deus que me possibilitou trilhar o caminho do meu desejo. Agradeço a minha mãe pela grande dedicação e amor incondicional. Agradeço ao meu pai por me fazer um sujeito com caráter. Agradeço aos meus avós pela doce e marcante presença em minha vida. E agradeço ao meu tão caro Professor Geraldo Martins por não permitir que eu saísse da trilha do meu desejo.

 

 

 

Decifra-me ou devoro-te? Não vai me devorar, nem me decifrar nunca. Eu sou a esfinge e daí? Nesse narcisismo generalizado, me dá licença de eu ser narciso um pouquinho comigo mesma? De fazer comigo o que eu bem entender, ser amiga de quem quiser, de levar para minha casa as pessoas de quem eu gosto? Bem poucas pessoas vão conhecer a minha casa. Sou Elis Regina Carvalho Costa, que poucas pessoas vão morrer conhecendo. 

                                                                                      ELIS REGINA

 

RESUMO

 

 

 

Palavras chave: Elis Regina; Pulsão de morte; Sublimação. 

 

Este trabalho teve como objetivo analisar a obra e a vida da cantora brasileira Elis Regina Carvalho Costa através do viés psicanalítico. Os Conceitos psicanalíticos Pulsão de morte, Narcisismo e Sublimação puderam ser discutidos e analisados a partir desse trabalho biográfico. O interessante esta em vislumbrar como se destinou o caminho da pulsão de Elis Regina, ou seja, a saída que o Sujeito Elis Regina encontrou para dar vazão à sua pulsão. Assim, através de uma análise sobre o processo Narcísico encontramos o destino pulsional de Elis. A Sublimação.

SUMÁRIO

 

INTRODUÇÃO……………………………………………………………………………………….  08

1 ELIS DE-CIFRADA……………………………………………………………………………… 08

2  ELIS-NARCISO – Da Pulsão à Sublimação……………………………………………       12

CONSIDERAÇÕES FINAIS………………………………………………………………………          16

REFERÊNCIAS………………………………………………………………………………..18

Elis, de – cifrada

O presente trabalho terá o intuito de analisar através de conceitos psicanalíticos, a vida e a obra da cantora Elis Regina Carvalho Costa.

Nascida em 17 de março de 1945, na cidade de Porto Alegre, Elis Regina carvalho Costa era a primeira filha e primeira neta de uma família numerosa. De acordo com Regina Echeverria em Furacão Elis (2007),

A mãe de Elis, Dona Ercy transformara a primogênita dos Carvalho Costa em uma linda bonequinha estrábica, com laçarotes na cabeça e muito bem vestida. A pequena Elis era uma criança muito obediente. Gostava de brincar sozinha, costumava andar pelo quintal com uma bolsa de palha, falando consigo mesma. (ECHEVERRIA, 2007, p.247)

Ao ser a primogênita da família, Elis Regina já marcava o lugar de primeira, primeira filha, primeira neta e um pouco mais tarde, exatamente 20 anos, marcaria esse lugar como a primeira vencedora do primeiro festival de musica popular do Brasil, com a interpretação única e emocionada da canção Arrastão de Edu Lobo. Com esse premio Elis seria arrastada para uma estrada sem volta e sem parada para descanso.

O primeiro lugar seria perseguido por Elis durante toda a sua vida, era o seu ideal e a sua obrigação. Ideal por amar o que fazia que era cantar, e obrigação por aprender em casa com a sua mãe que fazer o melhor não era mais que a sua obrigação. O trecho abaixo demonstra bem esse fato:

Quando entrou para a escola primária, já sabia ler, escrever e fazer contas. Orgulhosa da menina, dona Ercy falava com ela como se fosse adulta, sem dengos infantis, sem erros de linguagem. E, quando Elis chegava em casa com notas altas, também ouvia em bom português: Não fez mais do que a obrigação! (ECHEVERRIA, 2007, p.23)

Na relação com a sua mãe, Elis era uma “menina mulher”, tratada aos cinco anos de idade como uma mulher madura. Já na relação com seu pai, o trecho a seguir poderá dizer:

Aos 28 anos, entrevistada por Fernando Faro, na TV Cultura de São Paulo, Elis traçaria o seguinte perfil de seu pai: Meu pai é uma pessoa muito esquisita. Se eu disser que não sei quem é meu pai, você não acredita. Ele tem bigode, cabelo preto, descende de índios e se chama Romeu. É filho de Francisco e Idalina. Ele praticamente não fala. (ECHEVERRIA, 2007, p.24)

Provavelmente a personalidade forte e contraditória de Elis Regina teve em suas raízes a influencia também contraditória da personalidade do se pai, como mostrou o trecho acima, e como demonstrará no trecho a seguir:

O pai de Elis, senhor Romeu era um homem sensível, gostava de ouvir Carlos Gardel e Chico Alves. Antes de casar, ganhou o segundo lugar num programa de calouros e, de vez em quando, num rompante, vestia-se com os longos camisolões da dona Ercy e desandava a cantar e bailar pela casa. Devia ter forte ascendência na pequena cabeça de Elis, porque durante anos ela acreditou que ele fosse de fato um bailarino. Ao descobrir a verdade, decepcionou-se. (ECHEVERRIA, 2007, p.22)

Com uma mãe forte e que cobrava a perfeição e com um pai enigmático, Elis Regina se lançava em direção à fama em meio a vestidos sujos de sangue, do seu sangue que, nervosa, sangrava antes das apresentações. Encontros e desencontros com homens que marcariam a sua vida através de casamentos e ressentimentos, musicas e filhos, ou melhor, musicas e a sua filha que ela diria mais tarde ser o seu maior orgulho, e drogas consumidas ou atiradas com fúria aos que tentassem passar pelo seu caminho sem serem convidados, mesmo que esses não convidados fossem seu pai e sua mãe. O trecho abaixo poderá exemplificar essa afirmação:

No final de 1964, Elis arranjou um namorado. Solano Ribeiro tinha 25 anos, e era um jovem politizado a procura do se caminho. […] Solano recorda: Eu passei um carnaval no Rio com Elis. Convivi com a família dela… Então aí a coisa ficou complicada. A relação de Elis com os pais era maldosamente agressiva. Ela sabia da dependência econômica deles. Fiquei chocado com a agressividade com que ela tratava as pessoas da família e com a própria agressividade dela, que me encantava, mas me espantava. Ela tinha a necessidade de botar alguma coisa pra fora. De repente, encostava-se a um canto e dormia. Era energia. Era vida. (ECHEVERRIA, 2007, p.35)

   A única coisa que transformava a Elis era a presença do pai em alguns ensaios. Ele vinha buscar dinheiro e ela ficava transformada, sentindo-se abusada.

Elis, perturbada com a imagem de um pai explorador, “falso bailarino”, se torna chefe da sua família por bancá-los, assume o “nome do pai”, a lei dentro dessa família, porém essa nomeação irá promover em sua vida uma eterna discussão com o social e consigo mesma. Ela se mostra contraditória, briguenta, e altamente insegura. 

Elis Regina se tornara uma artista consagrada, ganhando muito dinheiro e prestigio. Apresentava programas na televisão, fazia shows fora do Brasil, e se casara com o homem mais cobiçado da época. O jornalista e compositor Ronaldo Boscoli. Uma grande controvérsia na vida de Elis, pois Boscoli e ela eram declarados inimigos publicamente.

Ronaldo Boscoli em Echeverria (2007), fala sobre sua relação com Elis Regina:

Era uma relação perigosamente deliciosa. Voava tudo pelos ares e, de repente, estávamos nos agarrando de paixão. Fazíamos coisas estranhas e bonitas […] A frustração dela era eu; e ela, a minha. Era uma simbiose perfeita. Foi a mulher de que mais gostei totalmente, o máximo que eu pude gostar. Elis era um Id. Eu era outro, mas muito mais velho. […] Ao mesmo tempo em que ela tinha orgulho de mim, tinha ódio. (ECHEVERRIA, 2007, p.70)

Como na relação com os pais, Elis vive uma dualidade de amor e ódio com os parceiros com quem se relacionou. Com Ronaldo Boscoli essa dualidade foi intensa. A seguir o relato de um episódio de um desses momentos intensos de Elis e Boscoli:

“Não vou desfazer do meu passado”. Juntei tudo num baú, trancafiei a sete chaves. Ela mandou arrombar. Disse que tinha fotos comprometedoras, mas era mentira. Queimou tudo; meus boletins de colégio, minhas fotos de infância, minha história. Fiquei tão deprimido que chorei quando soube disso, de madrugada. Ela teve medo de que eu fosse bater nela, tinha pavor de mim às vezes. Ela disse depois: “Desculpe, não tinha o direito de apagar o seu passado”. (ECHEVERRIA, 2007, p.73)

A presença do pai incomodava bastante Elis Regina. A seguir outro relato de Ronaldo Boscoli sobre um episódio ocorrido na casa do casal Elis e Boscoli onde o pai provoca ou provocaria um desentendimento:

Falei pra Elis que ela estava alimentando uma loucura. Porque o pai bebia loucamente e mandava buscar mais dinheiro e mais dinheiro. Um dia mandei o empresário dizer para seu Romeu que não tinha dinheiro ate o mês que seguinte. Eu estava no banheiro da minha casa quando ele apertou o gatilho. Me joguei no chão. Elis ficou rigorosamente doida, e eu saí para acertar ele de qualquer jeito. A Elis se jogou na minha frente e pediu para deixá-la resolver a parada. Tirou o revólver da minha mão e foi falar com o pai. Deu um tapa na cara dele e chamou o Rogério para pegá-lo. (ECHEVERRIA, 2007, p.77)

Após se separar de Ronaldo Boscoli, Elis Regina tem seus anos mais calmos e artisticamente produtivos ao lado do pianista César Camargo Mariano. Com César, Elis estreou shows históricos como Falso Brilhante, que de falso só tinha o nome, Sinal Fechado, que cantava um Brasil censurado pela ditadura e Saudades do Brasil, onde Elis cantava um Brasil com saudades dos seus Bêbados e suas equilibristas exilados pelo regime militar.

Também com César, Elis teve um filho e uma filha, Maria Rita, o grande orgulho da vida dela, segundo ela mesma. Deixou os cabelos crescerem, se tornou mais feminina, aprimorou seu repertório musical e viveu bons anos na casa da Serra da Cantareira respirando ar puro e “respirando”.

Toda essa paz e harmonia não condizem com a personalidade de Elis que, como na sua interpretação de Arrastão, Elis se pôs a girar e gritar por um mundo diferente daquele que vivia. Ela já não queria ‘casas lá na Marambáia’, e assim, se separando do pianista e literalmente o demitindo da banda, Elis encontrou em seu caminho um imenso e intenso Trem Azul, o último embarque dessa menina, mulher, senhora.

Nesse trem, não tão azul, não cabiam “Boscolis, ou Cesars ou quem quer que fosse”. Era o sublime momento de Elis Regina, só ela e o publico couberam nesse trem. Na estação derradeira ou no final do espetáculo o publico em transe se despede da sua cantora lhe atirando rosas e aplaudindo de pé. Elis pega as rosas e atira ao publico num gesto emocionado, ou tentando dizer a eles que não se podem atirar rosas em estrelas, elas são inatingíveis.

Assim, aos 36 anos de idade, a garota que sangrava em seu vestido ao entrar em um palco para se apresentar, faz sangrar o coração de milhares de fãs que só tiveram a oportunidade de vê-la de perto, em seu velório no teatro dos Bandeirantes, onde anos atrás ela brilhava com o show nada falso e extremamente brilhante: Falso Brilhante.

A seguir um texto de Elis:

Decifra-me ou devoro-te? Não vai me devorar, nem me decifrar nunca. Eu sou a esfinge e daí? Nesse narcisismo generalizado, me dá licença de eu ser narciso um pouquinho comigo mesma? De fazer comigo o que eu bem entender, ser amiga de quem quiser, de levar para minha casa as pessoas de quem eu gosto? Bem poucas pessoas vão conhecer a minha casa. Sou Elis Regina Carvalho Costa, que poucas pessoas vão morrer conhecendo. (ECHEVERRIA, 2007, p.162)

Decifrar Elis Regina será o propósito desse trabalho. Para isso, utilizaremos o método que acreditamos ser o mais sábio quando o objeto de estudo são as esfinges. O método da psicanálise. Eis Elis, ex – finge.

No capítulo seguinte analisarei a vida e a obra de Elis Regina Carvalho Costa através da ótica da psicanálise.

http://www.terra.com.br/istoegente/ensaios/elis_regina/fotos/foto_15.jpg

 

2 – Elis, Narciso – Da Pulsão à Sublimação

 

Neste capítulo analisaremos a vida e a obra de Elis Regina através dos conceitos psicanalíticos: Pulsão, Narcisismo e Sublimação.  

A seguir o conceito de Pulsão de acordo com Roudinesco, E. e Plon, M. Dicionário de Psicanálise (1998):

Pulsão é a carga energética que se encontra na origem da atividade motora do organismo e do funcionamento psíquico inconsciente do homem. (…) As pulsões sexuais encontram-se sob o domínio do principio do prazer, enquanto as de autoconservação ficam a serviço do desenvolvimento psíquico determinado pelo principio de realidade.

O alvo da pulsão é atingir o seu objetivo que é a satisfação. No caso de Elis Regina essa satisfação se achava no cantar, como ela mesma dizia; cantar igual sabiá. A seguir um poema que Elis escreveu e recitou na abertura do seu derradeiro Show: O trem azul.

Agora o braço não é mais o braço erguido num grito de gol.

Agora o braço é uma linha, um traço, um rastro espelhado e brilhante.

E todas as figuras são assim: desenhos de luz, agrupamentos de pontos de partículas, um quadro de impulsos, um processamento de sinais.

E assim – dizem – recontam a vida. Agora retiram de mim a cobertura de carne, escorrem todo o sangue, afinam os ossos em fios luminosos e aí estou, pelo salão, pelas casas, pelas cidades, parecida comigo.Um rascunho.

Uma forma nebulosa, feita de luz e sombra. Como uma estrela. Agora eu sou uma estrela.

O poema acima traz uma grande contribuição para o presente trabalho, pois, através dele Elis Regina traça o caminho da sua pulsão. Despindo-se do corpo, Elis busca a satisfação pulsional se transformando em estrela. Uma forma nebulosa, feita de luz e sombra. De acordo com Noga Wine (1992) em Pulsão e Inconsciente; A Sublimação e o advento do Sujeito:

“O corpo, como fonte de pulsão, permanece alheio a qualquer ordem que venha a se estabelecer no psiquismo. Ele sempre deseja o novo e o diferente, obrigando o psíquico a reestruturar-se a cada inclusão de novas exigências que lhe são colocadas.” (WINE, 1992, p.17)

A seguir continuaremos a destrinchar o conceito de Pulsão para que possamos estabelecer conexão com os conceitos de Narcisismo e Sublimação. Segundo Noga Wine (1992):

 A pulsão é uma força constante, porque, mesmo quando se inscreve no psíquico, algo dela não cessa de se inscrever, ou seja, não se inscreve mas continua exercendo pressão: fica em aberto a ordem do “ser”, que não se inscreve como uma unidade fechada, deixando em aberto igualmente a ordem do saber, que não encerra um código absoluto, fixo e totalizador. (…) O sujeito é, portanto, esse próprio evento da sublimação, em que o corpo passa à ordem do espírito.  (WINE, 1992, p.17)

De acordo com Roudinesco, E. e Plon (1998), as pulsões sexuais podem ter quatro destinos: a inversão, a reversão para a própria pessoa, o recalque e a sublimação. No caso de Elis Regina, foi através da Sublimação que sua satisfação pulsional pode ser alcançada. Para tanto, somente através de uma valorização narcisica, Elis Regina concretizaria seu ideal sublime.

         Na citação abaixo André Green em Narcisismo de morte (1988), disserta sobre o Retrato do Narciso:

Ser único, todo-poderoso pelo corpo e pelo espírito encarnado no seu verbo, independente e autônomo sempre que queira, mas de quem os outros dependem sem que ele se sinta portador em relação a eles do menor desejo. No entanto, residindo entre os seus, os de sua família, de seu clã e de sua raça, eleito pelos signos evidentes da Divindade, feita à sua imagem. Ele é o primeiro deles, senhor do Universo, do Tempo e da Morte, todo vaidoso de seu diálogo sem testemunhas com o Deus único que o enche de favores – inclusive na queda pela qual é o objeto escolhido de seu sacrifício -, intercessor entre Deus e os homens vivendo no isolamento radiante de sua luz. Essa sombra do Deus é uma figura do Mesmo, do imutável, do inatingível, do imortal e do atemporal. (…) O narcisismo pertence menos ao universo dos mitos estéticos do que ao dos mitos religiosos. É por isto que refloresce ininterruptamente. (GREEN, 1988, p.57)

Através da citação de Green (1988), podemos analisar a forma como Elis Regina se mostrava perante os seus familiares, amigos e o público que acompanhava o seu trabalho. Uma mulher única, independente, poderosa, e portadora de uma imagem tão radiante que fixava em si todos os olhares. Elis tinha esse magnetismo pessoal que prende a atenção das pessoas.

Freud citado por Green (1988):

Atribui a certas formações de origem narcisista o papel de avaliar o Eu, de medir-se com ele, de rivalizar-se e de se esforçar por uma perfeição cada vez maior. A luta que se estabelece desenvolve-se entre a satisfação e a renuncia das satisfações libidinais, que sustenta o Eu. Os sacrifícios com que consentiu, parece-lhe desprezíveis frente ao sentimento de orgulho que tira disto. (…) Os mitos, as formações artísticas, as fantasias pessoais nos familiarizam com o tema do duplo. (…) Freud observa que uma das características mais freqüentes do duplo e a de ser imortal. (GREEN, 1988, p.145)

A eterna busca pela perfeição absoluta era uma marca presente na personalidade de Elis Regina. Ela não pretendia ser uma grande cantora brasileira, mas sim, a maior cantora do Brasil. Em uma entrevista a TV Record em 1982, a cantora Maria Bethânia diz o seguinte sobre Elis Regina: Pensar que ela morreu é algo que não entra na minha cabeça, pois Elis tinha uma força, uma vida, uma gana de viver e de ganhar, passando por cima de quem fosse, pisando em quem fosse, e amando quem fosse. Elis morta, eu não entendo.

Como na citação acima de Freud em Green (1988) e o desabafo da cantora Maria Bethânia, a imortalidade esta tanto presente na figura do narciso, quanto na imagem que as pessoas têm de Elis Regina. Essa imagem do imortal faz de Elis um mito que como descreve Green (1988), refloresce ininterruptamente.

Também segundo Green (1988): O narcisismo primário é Desejo do Um, aspiração a uma totalidade auto-suficiente e auto-engendramento e a condição, morte e negação da morte ao mesmo tempo (GREEN, 1988, p.63). É interessante percebermos como o furor pela vida e a presença da morte fazem parte da obra e da existência de Elis Regina. É uma com-pulsão pela vida numa com – pulsão pela morte.

Elis Regina, num processo narcísico encontrava o caminho da sua pulsão através da completa doação à arte e a música. Eis sua Sublimação.

Assim, a sublimação é um destino da pulsão que como descreve Laplanche em A Sublimação 1989:

A pulsão apresenta-se como tendo sua origem numa excitação interna a que o aparelho psíquico não pode fugir. Uma vez que não se lhe pode fugir, ela vai estar na origem de verdadeiras elaborações. Entre estas, cito as duas principais categorias: aquelas que pondo em funcionamento certo numero de dispositivos, acabam resultando na descarga da tensão pulsional e, por outro lado, aquelas que têm por efeito modificações que incidem diretamente sobre a própria pulsão: os destinos pulsionais. Dentre esses destinos, esta a sublimação. (Laplanche, 1989, p.14)

Elis Regina, na busca constante da satisfação pulsional através do cantar, direcionando sua libido do objeto para si, ou seja, para uma libido narcisica, encarna a estrela identificada e des – encarna o corpo sexual.

A seguir o conceito de Sublimação em Laplanche, (1989):

Processo postulado por Freud para explicar atividades humanas aparentemente sem relação com a sexualidade, mas que encontrariam sua origem na força da pulsão sexual. (…) Diz-se que a pulsão foi sublimada na medida em que ela é desviada para uma nova meta não-sexual e visa a objetos socialmente valorizados. (LAPLANCHE, 1989, p.11)

Nesse processo sublimatório, Elis manteve-se viva enquanto identificada com a “estrela cantante”, enquanto sustentava a partir do cantar a pulsão de vida, ou seja, destinando sua pulsão ao que ela deveria ser destinada, ou seja, à linguagem. O destino da pulsão é transformar-se em linguagem. (WINE, 1992, p.35)

Porém como uma brecha, o princípio do prazer calou a linguagem, sujeitando Elis – Narciso à desenfreada pulsão de morte. Ao identificar-se com a Estrela, Elis negou a possibilidade do excesso que a levaria à morte, pois, para uma identificação completa, o corpo sólido se tornara um obstáculo. Seria preciso uma completa dessexualização pulsional, um ato narcísico de sublimação. Dar vida ao mito, eternizando a obra e calando o corpo.

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CONSIDERAÇÕES FINAIS

Através da ótica psicanalítica me propus neste trabalho, decifrar e analisar a vida e a obra de uma das mais brilhantes e polemicas personagens da historia da musica do Brasil: a cantora Elis Regina Carvalho Costa.

Elis, com sua personalidade forte e contraditória e uma insegurança a flor da pele escondida pela agressividade marcante com que lidava com as pessoas e consigo mesma, tornou-se pano de fundo para o estudo dos conceitos psicanalíticos: Pulsão, Narcisismo e Sublimação.

Através do cantar de Elis Regina tivemos toda a dimensão do destino que sua pulsão tomou para ser transformada em linguagem cantada no processo da sublimação. No entanto, acredito que para que essa sublimação ocorresse, foi preciso que Elis voltasse para si num processo narcisico de auto-valorização. Esse foi o trajeto que percorremos nesse trabalho para analisar o Sujeito Elis Regina. Sua pulsão presente na garra com que vivia intensamente – pulsão de vida, e pelas garras afiadas com que ela mesma se marcou e demarcou sua vida numa emocionante e breve historia – pulsão de morte. 

No lar, Elis Regina regia uma pequena orquestra familiar. Era a voz dessa orquestra. Era ela que dava as notas que seus pequenos filhos e seu homem deveriam tocar. Com esses filhos as notas eram quase sempre melódicas e suaves, mas, com seu homem as notas ou eram extremamente graves como o ganir de um cão raivoso, ou agudas como um uivado de um lobo solitário e sedento por um afeto maior.

No palco, Elis estrela era regida pelo dom vivificado pela sublimação. Cantava, dançava e chorava tudo, tudo o que ela desejava expressar. Todas as notas eram vividas naquele lugar. Agudas ou suaves, graves ou melódicas, as notas no palco eram sublimes, elas delineavam o pequeno corpo da estrela Elis, e a tornava grande, tão grande que fazia do Outro um pequeno aplaudindo na multidão.

Discorrer sobre a obra de Elis Regina é cercar-se de linguagem. Elis cantava a palavra, e a pronunciava a partir do conceito que esta representava para a artista. Na voz de Elis a palavra ganhava novos sentidos, transformando-a numa co-autora da música.

O cantor Gilberto Gil “preocupado” com a intensidade com que Elis interpretava, presenteou-a com uma canção de nome O compositor me disse, e musicalmente a recomendou relaxar um pouco e deixar a voz sair pelos “pulmões ao invés das vísceras”. O resultado foi uma interpretação intensa e marcante, naturalmente vindo das vísceras. O compositor não disse, Elis mais uma vez disse. E dirá no trecho abaixo:

Minha música sai natural e espontânea. Eu faço cara feia, sou exagerada nos gestos? E eu com isso? É um problema de quem o acha. Eu sinto as coisas assim e eu simplesmente recorro a isso tudo porque às vezes a palavra não é suficiente para demonstrar as pessoas tudo que se quer dizer, não tem força para isso. O gesto é meu, o repertório quem escolhe ou eu, as letras, as músicas e tudo mais também refletem muito de mim. Música para mim é a única razão de ser, minha vida gira toda em função dela. (ELIS REGINA, entrevista TV Record, 1972)

Essa confissão de Elis envolve todo o trabalho que propus através dessa monografia. Ninguém melhor para justificar a teoria aqui exposta senão o próprio objeto em estudo, ou seja, o Sujeito da Pulsão e da Sublimação: Elis Narciso Regina.

Como Elis mesma disse, a palavra não é suficiente para dizer tudo o que ela desejava, daí o corpo assume a função de exprimir o desejo, através de gestos e caras feias. Seu corpo torna-se linguagem.  Linguagem de vida, de obra e de morte.

 Elis é Isso, essa busca interminável por uma palavra que a decifre. Essa performance do mito encarnado de linguagem. Esse eterno vazio a ser preenchido através de melodias intermináveis. E enfim essa contraditória equilibrista a caminhar infinitamente pela Transversal do tempo dentro de um Trem Azul, ostentando um perfeito Falso Brilhante que a torna Essa Mulher.

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REFERÊNCIAS

 

ECHECERRIA, Regina. Furacão Elis.  Ediouro, 2007, 247p

GREEN, André, Narcisismo de morte,1988.

LAPLANCHE, Jean, PONTALIS, Jean Baptiste. Diccionario de Psicanálisis. Barcelona; Laber do Brasil, 1971, 557p.

LAPLANCHE, Jean. A Sublimação. M. Fontes, 1989, 233p.

WINE, Noga. Pulsão e Inconsciente; a sublimação e o advento do sujeito. Jorge Zahar, 1992, 168p.

ROUDINESCO, E. e PLON, M. Dicionário de Psicanálise 1998.