ELIS DE-CIFRADA, TESE DE MONOGRAFIA

CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA

FACULDADE DE CIENCIAS HUMANAS E LETRAS

CURSO DE PSICOLOGIA

                                                      ELIS DE – CIFRADA

 

                                     ANGELO GUSTAVO VENÂNCIO DE LIMA

 

BELO HORIZONTE

DEZEMBRO / 2008

ELIS DE – CIFRADA

 

 

 

 

 

Monografia apresentada ao Curso de Psicologia da Faculdade de Ciências Humanas e Letras do Centro Universitário Newton Paiva, na disciplina Orientação de Monografia, como requisito para obtenção do título de graduado em Psicologia, sob a orientação do professor Geraldo Martins.  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

BELO HORIZONTE

MAIO / 2009 

AGRADECIMENTOS

Agradeço a Deus que me possibilitou trilhar o caminho do meu desejo. Agradeço a minha mãe pela grande dedicação e amor incondicional. Agradeço ao meu pai por me fazer um sujeito com caráter. Agradeço aos meus avós pela doce e marcante presença em minha vida. E agradeço ao meu tão caro Professor Geraldo Martins por não permitir que eu saísse da trilha do meu desejo.

 

 

 

Decifra-me ou devoro-te? Não vai me devorar, nem me decifrar nunca. Eu sou a esfinge e daí? Nesse narcisismo generalizado, me dá licença de eu ser narciso um pouquinho comigo mesma? De fazer comigo o que eu bem entender, ser amiga de quem quiser, de levar para minha casa as pessoas de quem eu gosto? Bem poucas pessoas vão conhecer a minha casa. Sou Elis Regina Carvalho Costa, que poucas pessoas vão morrer conhecendo. 

                                                                                      ELIS REGINA

 

RESUMO

 

 

 

Palavras chave: Elis Regina; Pulsão de morte; Sublimação. 

 

Este trabalho teve como objetivo analisar a obra e a vida da cantora brasileira Elis Regina Carvalho Costa através do viés psicanalítico. Os Conceitos psicanalíticos Pulsão de morte, Narcisismo e Sublimação puderam ser discutidos e analisados a partir desse trabalho biográfico. O interessante esta em vislumbrar como se destinou o caminho da pulsão de Elis Regina, ou seja, a saída que o Sujeito Elis Regina encontrou para dar vazão à sua pulsão. Assim, através de uma análise sobre o processo Narcísico encontramos o destino pulsional de Elis. A Sublimação.

SUMÁRIO

 

INTRODUÇÃO……………………………………………………………………………………….  08

1 ELIS DE-CIFRADA……………………………………………………………………………… 08

2  ELIS-NARCISO – Da Pulsão à Sublimação……………………………………………       12

CONSIDERAÇÕES FINAIS………………………………………………………………………          16

REFERÊNCIAS………………………………………………………………………………..18

Elis, de – cifrada

O presente trabalho terá o intuito de analisar através de conceitos psicanalíticos, a vida e a obra da cantora Elis Regina Carvalho Costa.

Nascida em 17 de março de 1945, na cidade de Porto Alegre, Elis Regina carvalho Costa era a primeira filha e primeira neta de uma família numerosa. De acordo com Regina Echeverria em Furacão Elis (2007),

A mãe de Elis, Dona Ercy transformara a primogênita dos Carvalho Costa em uma linda bonequinha estrábica, com laçarotes na cabeça e muito bem vestida. A pequena Elis era uma criança muito obediente. Gostava de brincar sozinha, costumava andar pelo quintal com uma bolsa de palha, falando consigo mesma. (ECHEVERRIA, 2007, p.247)

Ao ser a primogênita da família, Elis Regina já marcava o lugar de primeira, primeira filha, primeira neta e um pouco mais tarde, exatamente 20 anos, marcaria esse lugar como a primeira vencedora do primeiro festival de musica popular do Brasil, com a interpretação única e emocionada da canção Arrastão de Edu Lobo. Com esse premio Elis seria arrastada para uma estrada sem volta e sem parada para descanso.

O primeiro lugar seria perseguido por Elis durante toda a sua vida, era o seu ideal e a sua obrigação. Ideal por amar o que fazia que era cantar, e obrigação por aprender em casa com a sua mãe que fazer o melhor não era mais que a sua obrigação. O trecho abaixo demonstra bem esse fato:

Quando entrou para a escola primária, já sabia ler, escrever e fazer contas. Orgulhosa da menina, dona Ercy falava com ela como se fosse adulta, sem dengos infantis, sem erros de linguagem. E, quando Elis chegava em casa com notas altas, também ouvia em bom português: Não fez mais do que a obrigação! (ECHEVERRIA, 2007, p.23)

Na relação com a sua mãe, Elis era uma “menina mulher”, tratada aos cinco anos de idade como uma mulher madura. Já na relação com seu pai, o trecho a seguir poderá dizer:

Aos 28 anos, entrevistada por Fernando Faro, na TV Cultura de São Paulo, Elis traçaria o seguinte perfil de seu pai: Meu pai é uma pessoa muito esquisita. Se eu disser que não sei quem é meu pai, você não acredita. Ele tem bigode, cabelo preto, descende de índios e se chama Romeu. É filho de Francisco e Idalina. Ele praticamente não fala. (ECHEVERRIA, 2007, p.24)

Provavelmente a personalidade forte e contraditória de Elis Regina teve em suas raízes a influencia também contraditória da personalidade do se pai, como mostrou o trecho acima, e como demonstrará no trecho a seguir:

O pai de Elis, senhor Romeu era um homem sensível, gostava de ouvir Carlos Gardel e Chico Alves. Antes de casar, ganhou o segundo lugar num programa de calouros e, de vez em quando, num rompante, vestia-se com os longos camisolões da dona Ercy e desandava a cantar e bailar pela casa. Devia ter forte ascendência na pequena cabeça de Elis, porque durante anos ela acreditou que ele fosse de fato um bailarino. Ao descobrir a verdade, decepcionou-se. (ECHEVERRIA, 2007, p.22)

Com uma mãe forte e que cobrava a perfeição e com um pai enigmático, Elis Regina se lançava em direção à fama em meio a vestidos sujos de sangue, do seu sangue que, nervosa, sangrava antes das apresentações. Encontros e desencontros com homens que marcariam a sua vida através de casamentos e ressentimentos, musicas e filhos, ou melhor, musicas e a sua filha que ela diria mais tarde ser o seu maior orgulho, e drogas consumidas ou atiradas com fúria aos que tentassem passar pelo seu caminho sem serem convidados, mesmo que esses não convidados fossem seu pai e sua mãe. O trecho abaixo poderá exemplificar essa afirmação:

No final de 1964, Elis arranjou um namorado. Solano Ribeiro tinha 25 anos, e era um jovem politizado a procura do se caminho. […] Solano recorda: Eu passei um carnaval no Rio com Elis. Convivi com a família dela… Então aí a coisa ficou complicada. A relação de Elis com os pais era maldosamente agressiva. Ela sabia da dependência econômica deles. Fiquei chocado com a agressividade com que ela tratava as pessoas da família e com a própria agressividade dela, que me encantava, mas me espantava. Ela tinha a necessidade de botar alguma coisa pra fora. De repente, encostava-se a um canto e dormia. Era energia. Era vida. (ECHEVERRIA, 2007, p.35)

   A única coisa que transformava a Elis era a presença do pai em alguns ensaios. Ele vinha buscar dinheiro e ela ficava transformada, sentindo-se abusada.

Elis, perturbada com a imagem de um pai explorador, “falso bailarino”, se torna chefe da sua família por bancá-los, assume o “nome do pai”, a lei dentro dessa família, porém essa nomeação irá promover em sua vida uma eterna discussão com o social e consigo mesma. Ela se mostra contraditória, briguenta, e altamente insegura. 

Elis Regina se tornara uma artista consagrada, ganhando muito dinheiro e prestigio. Apresentava programas na televisão, fazia shows fora do Brasil, e se casara com o homem mais cobiçado da época. O jornalista e compositor Ronaldo Boscoli. Uma grande controvérsia na vida de Elis, pois Boscoli e ela eram declarados inimigos publicamente.

Ronaldo Boscoli em Echeverria (2007), fala sobre sua relação com Elis Regina:

Era uma relação perigosamente deliciosa. Voava tudo pelos ares e, de repente, estávamos nos agarrando de paixão. Fazíamos coisas estranhas e bonitas […] A frustração dela era eu; e ela, a minha. Era uma simbiose perfeita. Foi a mulher de que mais gostei totalmente, o máximo que eu pude gostar. Elis era um Id. Eu era outro, mas muito mais velho. […] Ao mesmo tempo em que ela tinha orgulho de mim, tinha ódio. (ECHEVERRIA, 2007, p.70)

Como na relação com os pais, Elis vive uma dualidade de amor e ódio com os parceiros com quem se relacionou. Com Ronaldo Boscoli essa dualidade foi intensa. A seguir o relato de um episódio de um desses momentos intensos de Elis e Boscoli:

“Não vou desfazer do meu passado”. Juntei tudo num baú, trancafiei a sete chaves. Ela mandou arrombar. Disse que tinha fotos comprometedoras, mas era mentira. Queimou tudo; meus boletins de colégio, minhas fotos de infância, minha história. Fiquei tão deprimido que chorei quando soube disso, de madrugada. Ela teve medo de que eu fosse bater nela, tinha pavor de mim às vezes. Ela disse depois: “Desculpe, não tinha o direito de apagar o seu passado”. (ECHEVERRIA, 2007, p.73)

A presença do pai incomodava bastante Elis Regina. A seguir outro relato de Ronaldo Boscoli sobre um episódio ocorrido na casa do casal Elis e Boscoli onde o pai provoca ou provocaria um desentendimento:

Falei pra Elis que ela estava alimentando uma loucura. Porque o pai bebia loucamente e mandava buscar mais dinheiro e mais dinheiro. Um dia mandei o empresário dizer para seu Romeu que não tinha dinheiro ate o mês que seguinte. Eu estava no banheiro da minha casa quando ele apertou o gatilho. Me joguei no chão. Elis ficou rigorosamente doida, e eu saí para acertar ele de qualquer jeito. A Elis se jogou na minha frente e pediu para deixá-la resolver a parada. Tirou o revólver da minha mão e foi falar com o pai. Deu um tapa na cara dele e chamou o Rogério para pegá-lo. (ECHEVERRIA, 2007, p.77)

Após se separar de Ronaldo Boscoli, Elis Regina tem seus anos mais calmos e artisticamente produtivos ao lado do pianista César Camargo Mariano. Com César, Elis estreou shows históricos como Falso Brilhante, que de falso só tinha o nome, Sinal Fechado, que cantava um Brasil censurado pela ditadura e Saudades do Brasil, onde Elis cantava um Brasil com saudades dos seus Bêbados e suas equilibristas exilados pelo regime militar.

Também com César, Elis teve um filho e uma filha, Maria Rita, o grande orgulho da vida dela, segundo ela mesma. Deixou os cabelos crescerem, se tornou mais feminina, aprimorou seu repertório musical e viveu bons anos na casa da Serra da Cantareira respirando ar puro e “respirando”.

Toda essa paz e harmonia não condizem com a personalidade de Elis que, como na sua interpretação de Arrastão, Elis se pôs a girar e gritar por um mundo diferente daquele que vivia. Ela já não queria ‘casas lá na Marambáia’, e assim, se separando do pianista e literalmente o demitindo da banda, Elis encontrou em seu caminho um imenso e intenso Trem Azul, o último embarque dessa menina, mulher, senhora.

Nesse trem, não tão azul, não cabiam “Boscolis, ou Cesars ou quem quer que fosse”. Era o sublime momento de Elis Regina, só ela e o publico couberam nesse trem. Na estação derradeira ou no final do espetáculo o publico em transe se despede da sua cantora lhe atirando rosas e aplaudindo de pé. Elis pega as rosas e atira ao publico num gesto emocionado, ou tentando dizer a eles que não se podem atirar rosas em estrelas, elas são inatingíveis.

Assim, aos 36 anos de idade, a garota que sangrava em seu vestido ao entrar em um palco para se apresentar, faz sangrar o coração de milhares de fãs que só tiveram a oportunidade de vê-la de perto, em seu velório no teatro dos Bandeirantes, onde anos atrás ela brilhava com o show nada falso e extremamente brilhante: Falso Brilhante.

A seguir um texto de Elis:

Decifra-me ou devoro-te? Não vai me devorar, nem me decifrar nunca. Eu sou a esfinge e daí? Nesse narcisismo generalizado, me dá licença de eu ser narciso um pouquinho comigo mesma? De fazer comigo o que eu bem entender, ser amiga de quem quiser, de levar para minha casa as pessoas de quem eu gosto? Bem poucas pessoas vão conhecer a minha casa. Sou Elis Regina Carvalho Costa, que poucas pessoas vão morrer conhecendo. (ECHEVERRIA, 2007, p.162)

Decifrar Elis Regina será o propósito desse trabalho. Para isso, utilizaremos o método que acreditamos ser o mais sábio quando o objeto de estudo são as esfinges. O método da psicanálise. Eis Elis, ex – finge.

No capítulo seguinte analisarei a vida e a obra de Elis Regina Carvalho Costa através da ótica da psicanálise.

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2 – Elis, Narciso – Da Pulsão à Sublimação

 

Neste capítulo analisaremos a vida e a obra de Elis Regina através dos conceitos psicanalíticos: Pulsão, Narcisismo e Sublimação.  

A seguir o conceito de Pulsão de acordo com Roudinesco, E. e Plon, M. Dicionário de Psicanálise (1998):

Pulsão é a carga energética que se encontra na origem da atividade motora do organismo e do funcionamento psíquico inconsciente do homem. (…) As pulsões sexuais encontram-se sob o domínio do principio do prazer, enquanto as de autoconservação ficam a serviço do desenvolvimento psíquico determinado pelo principio de realidade.

O alvo da pulsão é atingir o seu objetivo que é a satisfação. No caso de Elis Regina essa satisfação se achava no cantar, como ela mesma dizia; cantar igual sabiá. A seguir um poema que Elis escreveu e recitou na abertura do seu derradeiro Show: O trem azul.

Agora o braço não é mais o braço erguido num grito de gol.

Agora o braço é uma linha, um traço, um rastro espelhado e brilhante.

E todas as figuras são assim: desenhos de luz, agrupamentos de pontos de partículas, um quadro de impulsos, um processamento de sinais.

E assim – dizem – recontam a vida. Agora retiram de mim a cobertura de carne, escorrem todo o sangue, afinam os ossos em fios luminosos e aí estou, pelo salão, pelas casas, pelas cidades, parecida comigo.Um rascunho.

Uma forma nebulosa, feita de luz e sombra. Como uma estrela. Agora eu sou uma estrela.

O poema acima traz uma grande contribuição para o presente trabalho, pois, através dele Elis Regina traça o caminho da sua pulsão. Despindo-se do corpo, Elis busca a satisfação pulsional se transformando em estrela. Uma forma nebulosa, feita de luz e sombra. De acordo com Noga Wine (1992) em Pulsão e Inconsciente; A Sublimação e o advento do Sujeito:

“O corpo, como fonte de pulsão, permanece alheio a qualquer ordem que venha a se estabelecer no psiquismo. Ele sempre deseja o novo e o diferente, obrigando o psíquico a reestruturar-se a cada inclusão de novas exigências que lhe são colocadas.” (WINE, 1992, p.17)

A seguir continuaremos a destrinchar o conceito de Pulsão para que possamos estabelecer conexão com os conceitos de Narcisismo e Sublimação. Segundo Noga Wine (1992):

 A pulsão é uma força constante, porque, mesmo quando se inscreve no psíquico, algo dela não cessa de se inscrever, ou seja, não se inscreve mas continua exercendo pressão: fica em aberto a ordem do “ser”, que não se inscreve como uma unidade fechada, deixando em aberto igualmente a ordem do saber, que não encerra um código absoluto, fixo e totalizador. (…) O sujeito é, portanto, esse próprio evento da sublimação, em que o corpo passa à ordem do espírito.  (WINE, 1992, p.17)

De acordo com Roudinesco, E. e Plon (1998), as pulsões sexuais podem ter quatro destinos: a inversão, a reversão para a própria pessoa, o recalque e a sublimação. No caso de Elis Regina, foi através da Sublimação que sua satisfação pulsional pode ser alcançada. Para tanto, somente através de uma valorização narcisica, Elis Regina concretizaria seu ideal sublime.

         Na citação abaixo André Green em Narcisismo de morte (1988), disserta sobre o Retrato do Narciso:

Ser único, todo-poderoso pelo corpo e pelo espírito encarnado no seu verbo, independente e autônomo sempre que queira, mas de quem os outros dependem sem que ele se sinta portador em relação a eles do menor desejo. No entanto, residindo entre os seus, os de sua família, de seu clã e de sua raça, eleito pelos signos evidentes da Divindade, feita à sua imagem. Ele é o primeiro deles, senhor do Universo, do Tempo e da Morte, todo vaidoso de seu diálogo sem testemunhas com o Deus único que o enche de favores – inclusive na queda pela qual é o objeto escolhido de seu sacrifício -, intercessor entre Deus e os homens vivendo no isolamento radiante de sua luz. Essa sombra do Deus é uma figura do Mesmo, do imutável, do inatingível, do imortal e do atemporal. (…) O narcisismo pertence menos ao universo dos mitos estéticos do que ao dos mitos religiosos. É por isto que refloresce ininterruptamente. (GREEN, 1988, p.57)

Através da citação de Green (1988), podemos analisar a forma como Elis Regina se mostrava perante os seus familiares, amigos e o público que acompanhava o seu trabalho. Uma mulher única, independente, poderosa, e portadora de uma imagem tão radiante que fixava em si todos os olhares. Elis tinha esse magnetismo pessoal que prende a atenção das pessoas.

Freud citado por Green (1988):

Atribui a certas formações de origem narcisista o papel de avaliar o Eu, de medir-se com ele, de rivalizar-se e de se esforçar por uma perfeição cada vez maior. A luta que se estabelece desenvolve-se entre a satisfação e a renuncia das satisfações libidinais, que sustenta o Eu. Os sacrifícios com que consentiu, parece-lhe desprezíveis frente ao sentimento de orgulho que tira disto. (…) Os mitos, as formações artísticas, as fantasias pessoais nos familiarizam com o tema do duplo. (…) Freud observa que uma das características mais freqüentes do duplo e a de ser imortal. (GREEN, 1988, p.145)

A eterna busca pela perfeição absoluta era uma marca presente na personalidade de Elis Regina. Ela não pretendia ser uma grande cantora brasileira, mas sim, a maior cantora do Brasil. Em uma entrevista a TV Record em 1982, a cantora Maria Bethânia diz o seguinte sobre Elis Regina: Pensar que ela morreu é algo que não entra na minha cabeça, pois Elis tinha uma força, uma vida, uma gana de viver e de ganhar, passando por cima de quem fosse, pisando em quem fosse, e amando quem fosse. Elis morta, eu não entendo.

Como na citação acima de Freud em Green (1988) e o desabafo da cantora Maria Bethânia, a imortalidade esta tanto presente na figura do narciso, quanto na imagem que as pessoas têm de Elis Regina. Essa imagem do imortal faz de Elis um mito que como descreve Green (1988), refloresce ininterruptamente.

Também segundo Green (1988): O narcisismo primário é Desejo do Um, aspiração a uma totalidade auto-suficiente e auto-engendramento e a condição, morte e negação da morte ao mesmo tempo (GREEN, 1988, p.63). É interessante percebermos como o furor pela vida e a presença da morte fazem parte da obra e da existência de Elis Regina. É uma com-pulsão pela vida numa com – pulsão pela morte.

Elis Regina, num processo narcísico encontrava o caminho da sua pulsão através da completa doação à arte e a música. Eis sua Sublimação.

Assim, a sublimação é um destino da pulsão que como descreve Laplanche em A Sublimação 1989:

A pulsão apresenta-se como tendo sua origem numa excitação interna a que o aparelho psíquico não pode fugir. Uma vez que não se lhe pode fugir, ela vai estar na origem de verdadeiras elaborações. Entre estas, cito as duas principais categorias: aquelas que pondo em funcionamento certo numero de dispositivos, acabam resultando na descarga da tensão pulsional e, por outro lado, aquelas que têm por efeito modificações que incidem diretamente sobre a própria pulsão: os destinos pulsionais. Dentre esses destinos, esta a sublimação. (Laplanche, 1989, p.14)

Elis Regina, na busca constante da satisfação pulsional através do cantar, direcionando sua libido do objeto para si, ou seja, para uma libido narcisica, encarna a estrela identificada e des – encarna o corpo sexual.

A seguir o conceito de Sublimação em Laplanche, (1989):

Processo postulado por Freud para explicar atividades humanas aparentemente sem relação com a sexualidade, mas que encontrariam sua origem na força da pulsão sexual. (…) Diz-se que a pulsão foi sublimada na medida em que ela é desviada para uma nova meta não-sexual e visa a objetos socialmente valorizados. (LAPLANCHE, 1989, p.11)

Nesse processo sublimatório, Elis manteve-se viva enquanto identificada com a “estrela cantante”, enquanto sustentava a partir do cantar a pulsão de vida, ou seja, destinando sua pulsão ao que ela deveria ser destinada, ou seja, à linguagem. O destino da pulsão é transformar-se em linguagem. (WINE, 1992, p.35)

Porém como uma brecha, o princípio do prazer calou a linguagem, sujeitando Elis – Narciso à desenfreada pulsão de morte. Ao identificar-se com a Estrela, Elis negou a possibilidade do excesso que a levaria à morte, pois, para uma identificação completa, o corpo sólido se tornara um obstáculo. Seria preciso uma completa dessexualização pulsional, um ato narcísico de sublimação. Dar vida ao mito, eternizando a obra e calando o corpo.

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CONSIDERAÇÕES FINAIS

Através da ótica psicanalítica me propus neste trabalho, decifrar e analisar a vida e a obra de uma das mais brilhantes e polemicas personagens da historia da musica do Brasil: a cantora Elis Regina Carvalho Costa.

Elis, com sua personalidade forte e contraditória e uma insegurança a flor da pele escondida pela agressividade marcante com que lidava com as pessoas e consigo mesma, tornou-se pano de fundo para o estudo dos conceitos psicanalíticos: Pulsão, Narcisismo e Sublimação.

Através do cantar de Elis Regina tivemos toda a dimensão do destino que sua pulsão tomou para ser transformada em linguagem cantada no processo da sublimação. No entanto, acredito que para que essa sublimação ocorresse, foi preciso que Elis voltasse para si num processo narcisico de auto-valorização. Esse foi o trajeto que percorremos nesse trabalho para analisar o Sujeito Elis Regina. Sua pulsão presente na garra com que vivia intensamente – pulsão de vida, e pelas garras afiadas com que ela mesma se marcou e demarcou sua vida numa emocionante e breve historia – pulsão de morte. 

No lar, Elis Regina regia uma pequena orquestra familiar. Era a voz dessa orquestra. Era ela que dava as notas que seus pequenos filhos e seu homem deveriam tocar. Com esses filhos as notas eram quase sempre melódicas e suaves, mas, com seu homem as notas ou eram extremamente graves como o ganir de um cão raivoso, ou agudas como um uivado de um lobo solitário e sedento por um afeto maior.

No palco, Elis estrela era regida pelo dom vivificado pela sublimação. Cantava, dançava e chorava tudo, tudo o que ela desejava expressar. Todas as notas eram vividas naquele lugar. Agudas ou suaves, graves ou melódicas, as notas no palco eram sublimes, elas delineavam o pequeno corpo da estrela Elis, e a tornava grande, tão grande que fazia do Outro um pequeno aplaudindo na multidão.

Discorrer sobre a obra de Elis Regina é cercar-se de linguagem. Elis cantava a palavra, e a pronunciava a partir do conceito que esta representava para a artista. Na voz de Elis a palavra ganhava novos sentidos, transformando-a numa co-autora da música.

O cantor Gilberto Gil “preocupado” com a intensidade com que Elis interpretava, presenteou-a com uma canção de nome O compositor me disse, e musicalmente a recomendou relaxar um pouco e deixar a voz sair pelos “pulmões ao invés das vísceras”. O resultado foi uma interpretação intensa e marcante, naturalmente vindo das vísceras. O compositor não disse, Elis mais uma vez disse. E dirá no trecho abaixo:

Minha música sai natural e espontânea. Eu faço cara feia, sou exagerada nos gestos? E eu com isso? É um problema de quem o acha. Eu sinto as coisas assim e eu simplesmente recorro a isso tudo porque às vezes a palavra não é suficiente para demonstrar as pessoas tudo que se quer dizer, não tem força para isso. O gesto é meu, o repertório quem escolhe ou eu, as letras, as músicas e tudo mais também refletem muito de mim. Música para mim é a única razão de ser, minha vida gira toda em função dela. (ELIS REGINA, entrevista TV Record, 1972)

Essa confissão de Elis envolve todo o trabalho que propus através dessa monografia. Ninguém melhor para justificar a teoria aqui exposta senão o próprio objeto em estudo, ou seja, o Sujeito da Pulsão e da Sublimação: Elis Narciso Regina.

Como Elis mesma disse, a palavra não é suficiente para dizer tudo o que ela desejava, daí o corpo assume a função de exprimir o desejo, através de gestos e caras feias. Seu corpo torna-se linguagem.  Linguagem de vida, de obra e de morte.

 Elis é Isso, essa busca interminável por uma palavra que a decifre. Essa performance do mito encarnado de linguagem. Esse eterno vazio a ser preenchido através de melodias intermináveis. E enfim essa contraditória equilibrista a caminhar infinitamente pela Transversal do tempo dentro de um Trem Azul, ostentando um perfeito Falso Brilhante que a torna Essa Mulher.

     www.terra.com.br/istoegente/ensaios/elis_regina/fotos/foto_21.jpg

REFERÊNCIAS

 

ECHECERRIA, Regina. Furacão Elis.  Ediouro, 2007, 247p

GREEN, André, Narcisismo de morte,1988.

LAPLANCHE, Jean, PONTALIS, Jean Baptiste. Diccionario de Psicanálisis. Barcelona; Laber do Brasil, 1971, 557p.

LAPLANCHE, Jean. A Sublimação. M. Fontes, 1989, 233p.

WINE, Noga. Pulsão e Inconsciente; a sublimação e o advento do sujeito. Jorge Zahar, 1992, 168p.

ROUDINESCO, E. e PLON, M. Dicionário de Psicanálise 1998.

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Um comentário sobre “ELIS DE-CIFRADA, TESE DE MONOGRAFIA

  1. Olá, tudo bem??? Achei interessante seu blog “entre o ser e a síndrome”… gostei muito da análise psicanalítica da Elis.

    Eu sou estudante de Letras e também tenho interesse em analisar a obra da Elis, aproximando-a da minha área de estudos. Se quiser papear sobre a Elis, pode me mandar um e-mail: ailtonmaa79@yahoo.com.br

    Abraço!

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