Função Compensa-dor

” Bastava o olhar de meu pai para eu me calar”

    Esta aí uma frase cada vez mais lembrada pelos maiores de cinquenta anos e cada vez menos vivenciada pelas gerações atuais. O Olhar do pai.  Esse olhar que dá ao sujeito o lugar de filho, um lugar onde a função paterna coloca borda, limite no desejo do sujeito-filho. Esse olhar-castração.

   Um pai chega ao consultório dizendo: ” Ele queria que eu comprasse o terceiro computador para ele, a diferença entre eles era mínima mas eu comprei. Um mês depois, ele queria o outro modelo, eu comprei… “

   Esse pai que citei acima, é um exemplo dos inúmeros pais e mães de família que chegam ao consultório desesperados porque a filha não quer comer e esta a cada dia mais obsecada em emagrecer e o filho  tomou várias advertências na escola por bater em colegas e ameaçar a professora.

   Eu pergunto a eles?

   “O que voces esperam com a terapia?”

Muitas vezes a resposta é essa:

“Me ajude a colocar limite sem sentir-me culpado em negar algo ao meu filho”.

   A culpa vem daquela idéia precipitada de muitos pais em dar tudo o que não puderam ter ao filho (será?). Esses pais se esquecem que podem não ter tido “tudo” mas tiveram por exemplo “áquele simples brinquedo” ganhado em uma época muito especial e guardado até hoje.  Essa “culpa” não permite que esses pais percebam a importância que a vida regrada os fez na tenra idade, possibilitando o amadurecimento.

    Chegamos aqui a um ponto fundamental:

” O custo de um alto nível de civilização é  sentimento de culpa” (FREUD)

    Então o que está acontecendo com a culpa que não permite a civilização em nossos filhos? Será que a palavra seria culpa? Será que a idéia seria a culpa em não dar algo que os filhos queiram para não magoá-los… OU SERÁ QUE A CULPA VEM APAZIGUAR A OMISSÃO PATERNA (função) ?

Então podíamos reproduzir a culpa da seguinte maneira:

” Sinto-me culpado em dar tudo ao meu filho, mas não porque eu não quero que não falte o que eu não tive, mas porque através dos objetos eu posso faltar…”

   Seria muito constrangedor essa elaboração colocada assim, direta, escancarada, responsabilizada. Más, é uma elaboração. Claro, não será a única, mas me parece bem atual, não?

    Nossos jovens têm crescido valorizando imensamente os objetos materiais contrapondo às pessoas… faz sentido então a elaboração anterior… pai=objeto, pai=compensa-dor.

   Bom, na terapia com crianças e adolescentes sem limites precisamos compreender o que essa falta de limites quer compensar nos pais? Assim, podemos criar bordas que possam frear o impulso presente na falta da função paterna. Isso remete à família, em sua homeostase.

Em breve novas considerações.

 

Angelo Gustavo V. Lima

CRP 4/32970